Participante: tentar apagar tudo o que tem ao
invés de inventar novas verdades, conviver com a ideia do nada e do fim das
coisas: este é o caminho da paz?
Não.
Por favor, olhe para frente. Não
importa o que esteja vendo, o que está sendo percebido depende da existência de
conceitos para existir. Se não os tiver, não terá nada para viver...
A
própria ciência humana fala que no mundo externo existem energias que são
captadas pelo olho e conduzidas até ao cérebro. Aí nasce a imagem do que está
sendo percebido. Como se forma a imagem de uma ou outra coisa? Por causa dos
conceitos que existem em sua mente. Se você os apagar não terá como criar
imagens de nada...
Mais um aspecto que me leva a dizer que o caminho não é o
que você me perguntou. Quem é você? O somatório de tudo que pensa que é. Ou
seja, você é o que os seus conceitos dizem que você é. Se não os tiver, você não
existirá...
Vocês imaginam que são seres que pensam, mas isso está errado:
vocês são o resultado de um pensamento. Vocês só existem porque há um pensamento
que afirma isso. Se ele não existisse, vocês não existiriam.
Você não existe
como você mesmo, mas é o resultado da ação dos seus conceitos. Sabe porque se
considera homem ou mulher? Porque existe um pensamento formado a partir dos
conceitos que distinguem um e outro sexo. Se estes conceitos não existissem,
você seria assexuado. Portanto, não dá apagar todos os conceitos que existem em
sua mente, pois senão seria um nada e o nada não existe.
O processo de
reforma íntima não se trata de mudar o que tem nem o de apagar o que existe.
Mas, mesmo que quisesse fazer isso não conseguiria, pois o que está na sua mente
lhe é dado externamente. Lembra-se que o Espírito da Verdade ensinou que os
pensamentos são dados aos seres humanos pelos espíritos fora da carne:
“459
Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos? Muito mais do que
imaginais. Influem a tal ponto que, de ordinário, são eles que vos dirigem”. (O
Livro dos Espíritos)
Todas as suas ideias são construídas por espíritos fora
da carne a mando de Deus para que a provação do espírito aconteça sempre. Isso
fica bem claro para nós quando analisamos as respostas do Espírito da Verdade,
assim como ficou claro para Kardec:
“Imaginamos erradamente que aos Espíritos
só caiba manifestar sua ação por fenômenos extraordinários. Quiséramos que nos
viessem auxiliar por meio de milagres e os figuramos sempre armados de uma
varinha mágica. Por não ser assim é que oculta nos parece a intervenção que têm
nas coisas deste mundo e muito natural o que se excuta com o concurso
deles”.
“Assim é que, provocando, por exemplo, o encontro de duas pessoas,
que suporão encontrar-se por acaso; inspirando a alguém a ideia de passar por
determinado lugar; chamando-lhe a atenção para certo ponto, se disso resulta o
que tenham em vista, eles obram de tal maneira que o homem crente de que obedece
a um impulso próprio, conserva sempre o seu livre arbítrio”. (O Livro dos
Espíritos, comentário de Kardec à pergunta 525a)
É por isso que você não pode
deixar de conviver com os conceitos que convive: o máximo que pode fazer é ao
recebê-los tornar sem valor o que é dito por eles. A única interferência que tem
com relação aos seus pensamentos é no seu relacionamento com o pensamento. Pode
relacionar-se com ele achando que está certo, que é justo, que é elevado, neste
caso usou o seu egoísmo para defender a sua materialidade, ou relacionar-se sem
conviver com os valores que ele expõe, neste caso priorizou a sua
espiritualidade.
Este é o processo de harmonização que faz o ser viver a
felicidade que Deus tem prometido. Isso porque a harmonização necessária não é
aquela que é realizada com as outras pessoas, com as coisas que acontecem ou com
os objetos, mas sim com o seu pensamento. É estar na neutralidade com relação ao
que o pensamento está expressando. Quem se harmoniza não é aquele que compactua
ou luta contra o pensamento, mas sim aquele que alcança a neutralidade, não
importando o que o pensamento fala.
Esta neutralidade se consiste em reagir
ao que é pensado da forma que já falamos: pode ser, pode não ser. Não importa o
que esteja estampado no pensamento, ao invés de querer modificá-lo ou negá-lo,
apenas diga: ‘não sei se é isso que o pensamento está dizendo’...
Portanto,
esqueça a questão de apagar seus conceitos, de mudá-los, de torná-los mais
espiritualizados: concentre-se apenas em manter-se neutro com relação ao que ele
afirma. Todas as ações suas com relação a negar, apagar ou compactuar com o que
é dito é ação do seu egoísmo defendendo seus interesses ou criando novos
subsistemas humanos, para poder defendê-los posteriormente. Saiba de uma coisa:
não importa o teor do pensamento: ele sempre está subordinado a um sistema
humano de vida.
Não se preocupe com a sua vida, com os acontecimentos,
objetos e pessoas com o qual convive: concentre-se nos seus pensamentos. Aliás,
se a sua vida é o que você pensa que é, quando se concentra neles, está
concentrado na vida. Se todos os mestres ensinaram que você precisa se
harmonizar com as coisas (pessoas, objetos e acontecimentos) da sua vida e se
elas são aquilo que você pensa, o seu trabalho, portanto, deve ser voltado ao
pensamento que cria o que você precisa se relacionar. Esta harmonia se consiste
em não vibrar dentro do que o pensamento contém.
Já que estamos abordando o
trabalho como deve ser realizado, deixe-me comentar uma coisa. Reparem que eu
ainda não falei em agir: falar, praticar uma determinada atividade, responder ao
acontecimento com esta ou aquela ação. Se, como disse o Espírito da Verdade,
suas ações são comandas externamente, o trabalho de reforma íntima não pode
passar por padronização de ações, não pode incluir o agir desta ou daquela
forma. É por isso que não toquei na questão de agir desta ou daquela
forma.
Dentro da vivência dos acontecimentos do mundo, por exemplo, pode o
seu pensamento criar a ideia de que existe uma sujeira e você, como buscador da
elevação espiritual, agir para neutralizar-se com relação a esta propositura.
Mesmo fazendo isso, se o outro ser humanizado com o qual está se relacionando
precisar para a sua provação que você discuta com ele verbalmente esta questão,
você verbalizará a sua discordância. A intensidade com o qual fará isso
(serenamente ou gritando) também não depende de você, mas do que o outro precisa
como prova.
Vocês não comandam o que fazem para os outros. Lembram-se dos
objetivos da encarnação?
“Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o
Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para
executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com
a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as
ordens de Deus”. (O Livro dos Espíritos, pergunta 132)
Vocês não podem deixar
de fazer o que o outro precisa. Por isso, mesmo que aja fisicamente de uma forma
que não expresse a sua neutralidade com o seu pensamento, não se preocupe: o que
fez é aquilo que o outro precisava como instrumento da sua provação. Sendo
assim, agir daquela forma é sua parte na obra da criação e, por isso, esta ação
jamais deixará de acontecer, mesmo que tenha conseguido neutralizar aquilo que o
pensamento expôs.
Além do mais, na hora que viu a sujeira houve um presente
onde teria que haver o trabalho que foi realizado; na hora que falar, haverá um
novo presente. Depois haverá um novo, quando a mente lhe cobrará que você
respondeu àquela ação de forma diferente do que seria esperado. Este é outro
presente onde se harmonizar: ‘respondi, e daí?’. A cada momento da sua vida deve
buscar neutralizar os efeitos do pensamento dentro de si.
Portanto, o
trabalho da harmonização necessária para a elevação espiritual só pode ser
realizado existindo conceitos e por isso não há a solução de apagá-los e
modificá-los. Este trabalho deve ser feito a cada presente que se vive, a cada
pensamento que surge, independente da forma como se age fisicamente. E não deve
se esperar que ele vá trazer determinados resultados, ou seja, vá fazer com que
haja desta ou daquela forma.
Joaquim de Aruanda